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Onda Seca
Pinacoteca-Projeto Octógono

A base do trabalho de Edith Derdyk é o desenho. Tudo parece desenvolver-se a partir de uma sensação traduzida em pensamento, uma linha que busca a sua materialidade no mundo, projeta, costura, desarticula planos e espaços, alterando a percepção deles. Por vezes um gesto efêmero, o registro sensível de uma caligrafia primal que apenas enuncia; por outras, um movimento obsessivo, quase mecânico, no esforço de construir, transformar, materializar. Ritmo, intensidade, delicadeza, energia são qualidades marcantes da obra que Edith vem desenvolvendo desde os anos ’80. Seus desenhos, gravuras, vídeos, objetos e instalações, articulam as noções de experiência e processo, com uma pesquisa sistemática em torno de polaridades como preto e branco, plano e espaço, transparência e densidade.

Onda Seca é uma escultura feita a partir de quatro toneladas de papel. Trata-se de um grande livro, construído pagina por pagina, impregnadas da energia dos diversos gestos que monta uma sobre as outras, registrando uma narrativa feita de pó e sutis digitais, pouco perceptíveis a olho nu. Entretanto o livro não se contém na sua forma agigantada, e suas partes parecem soltar-se da costura original que as agrupava, para duplicar-se, expandir-se no espaço do Octógono, provocando um fluxo incessante de páginas, uma onda branca, seca, interrompida e aprisionada pelo artista no instante da sua arrebentação.

De imediato, o projeto parece investir na possibilidade de deslocamento do plano para o espaço, apropriando-se de algum fragmento de pintura na galeria de marinhas no segundo andar do museu. A escultura, a sua horizontalidade, certamente, guarda uma memória de paisagem, uma representação que invade a arena e cria uma intersecção no eixo da rua que alinha o museu e a cidade (esta última, percebida a distancia, por entre as galerias e o belvedere do edifício). Pode ser ainda entendido como uma metáfora sobre a produção incessante de informação, a reprodutibilidade infinita dos objetos, a sua autodestruição, ou até sobre os papeis que dominam a burocracia das instituições públicas. Entretanto, o trabalho, associado aos vídeos na sala lateral, é, antes mais nada, um exercício de pura energia investida na paciente construção de um objeto e uma situação para provocar a imaginação do espectador. Ao mesmo tempo, ele afirma a especificidade da experiência visual, dos seus modos de construção, e do lugar onde ela ocorre. O trabalho oferece-se como mediação, como prática necessária para um conhecimento aprofundado da sensibilidade. Requer um tempo silencioso, propõe contemplação.

Ivo Mesquita
2007

 
 
by artebr.com