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Esculturas desenhadas

"...um peso que é vivo e não morto."
João Cabral de Melo Neto

Em Break-up (1965), de Marco Ferreri, Marcello Mastroianni interpreta um personagem aparentemente banal, que passa o dia a inflar balões, obcecado pela impossibilidade de saber quando é que um balão está realmente cheio, até quando daria para encher mais, qual é o ponto exato em que qualquer pequeno, imperceptível sopro o faria explodir. Tateando também a impossibilidade de se atingir o limite sem ultrapassá-lo, para a sua individual de alguns anos atrás no espetacular edifício projetado por Pieter Zumthor para a Kunsthaus de Bregenz, Santiago Sierra contratou engenheiros especializados para calcular o peso máximo que o prédio poderia suportar, e depois colocou nele uma carga tão grande que, quando o número de visitantes chegava ao máximo permitido, todos eles estavam cientes de estar circulando num edifício à beira da implosão. É fascinante observar quão insignificante pode ser a distância que separa considerações exclusivamente objetivas, físicas, de reflexões filosóficas, e, portanto, absolutamente metafísicas. Quando sobrepõe, uma a uma, milhares de folhas de papel, talvez Edith Derdyk não esteja tão preocupada com o peso da obra, que, aliás, dá a impressão de levitar, leve, sinuosa e móvel como uma onda. E quando suspende no ar enormes pranchas de madeira com linhas e linhas de fio de algodão, é possível que nem tente descobrir qual é o momento exato em que a união das linhas as torna, todas juntas, capazes de sustentar o peso. Mas esses são, contudo, dados fundamentais da reflexão (física e metafísica) sobre estas obras, e se as ondas rebentam os recifes, as obras de Edith Derdyk, num esforço isométrico e teimoso, derrubam paredes, abaulam pisos centenários, tencionam com negros fios de algodão e brancas folhas de papel a aparente estaticidade do museu e da galeria.

Nem sempre, mas com freqüência significativa, os escultores têm um jeito de pintar e desenhar, uma postura ao enfrentar o papel ou a tela, que os distingue de imediato. As grandes pinturas de Richard Serra, como as de Amilcar de Castro, ou ainda os desenhos e as gravuras de Eduardo Chillida, são extraordinários porque neles o preto parece transcender a sua própria imaterialidade, fazer-se substância, corpo tangível. Essas obras renegam, assim, a leveza aparente de sua bidimensionalidade: muito pelo contrário, são esmagadoras, quem olhar para elas não pode deixar de perceber que elas pesam o peso do metal e da pedra que a elas subjazem. É verdade que as pinturas de Amilcar de Castro, por vezes, têm cor, mas é inegável e evidentemente no preto que se revela sua alma de ferro, sua origem no mundo da escultura, de onde a gravidade, em todos seus sentidos, não pode ser banida. Cabe ver, nessa maneira de desenhar e pintar que revela os escultores (e por vezes até o escultor aninhado, malgré soi, dentro do pintor) o reflexo da integridade do material, e sentir nela o fascínio de uma relação com o mundo que não tem medo de se fixar nas coisas e ponderá-las, no sentido etimológico de especulação filosófica que parte, mais uma vez, de uma consideração do peso das coisas.

Os desenhos de Edith Derdyk parecem a um tempo revelar e desmentir a sua natureza de escultora. Por um lado, o torrente de fios tênues e frágeis, que fora do papel sustenta pesos inimagináveis, num esforço que toma proporções metafísicas exatamente por causa da sua vibrante fisicalidade, parece aqui sucumbir, desorganizar-se, entregar-se, desarrumado, ao deserto branco e absoluto do papel. Isto é, o peso e a tensão de suas esculturas não se abatem sobre o papel, agredindo-o: pelo contrário, os elementos escultóricos, que na obra de Edith Derdyk são sempre frágeis, quase elementares (os fios de algodão, as folhas de papel...), e apensas conseguem sustentar seu próprio peso pela força da acumulação, assumem aqui, de vez, a sua precariedade. Mas por outro lado, o que torna seus desenhos tão fascinantes é que essa entrega testemunha, evidentemente, não a derrota do traço, e sim a força soberana do papel: uma força real, física, contundente, confirmada pelo peso, que aumenta imperceptivelmente até se tornar incalculável e pelo canto vivo e cortante de suas folhas. E uma vez que isso esteja claro, eis que os desenhos de Edith Derdyk revelam-se obras plenas e coerentes, inconfundíveis, de uma escultora: seus desenhos são, eles mesmos, esculturas. Longe de ser apenas simulacros, são feitos da própria matéria de que são feitas as esculturas, e delas ontologicamente inseparáveis.

Jacopo Crivelli Visconti

 
 
by artebr.com