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Dia Um

No vocabulário da arquitetura, a expressão ‘duas águas’ refere-se àquela cobertura mais característica, feita de dois planos dispostos em cunha. Abarcando a construção, ao mesmo tempo voltam-se externamente para espaços contíguos e mais ou menos opostos e dividem entre si – além da chuva – também a luz ou o olhar que repara.

O trabalho que empresta seu título à exposição Dia um, de Edith Derdyk, tem algo desse funcionamento, mas tomando-o como se em processo. As chapas de ferro colocadas em lados opostos associam-se pela posição e pela aparência comum e simultaneamente repelem-se, percepções reforçadas pelas trajetórias das duas linhas que as conectam pelas extremidades. E, mais do que isso, já que adentram de um lado a parede e de outro o piso, mesmo que não haja um ponto de vista privilegiado de observação, as chapas apontam para sentidos diversos no que diz respeito a algumas das referências básicas de nossa orientação no espaço, ou seja, o que está à frente, o que está sob os pés. Entretanto, oscilando entre linha e superfície, desenha-se uma forma irregular mas razoavelmente completa, de tal maneira que, tudo somado, impõe-se uma mistura de concentração estática e impulso para fora. Como se a peça também falasse da existência de mais lugares além deste que segue transformando com sua presença forte.

A figura das duas águas poderia ser genericamente estendida a outros trabalhos da exposição, se relacionados aos pares, a despeito das variedades de formalização. Entre muitos outros exemplos, basta pensar num deles, feito de folhas de papel em branco, empilhadas e vazadas pela forma de um retângulo, se visto contra um outro que é como um painel de folhas quase totalmente cobertas de escritos e desenhos em várias camadas de tinta. Ou naquele objeto com pinos dos quais pendem maços de tiras de papel, lado a lado, numa sequência entrecortada, se comparado ao trabalho composto de agulhas cravadas na parede, formando uma reta extensa, que sustentam uma única linha preta de algodão. Ou, ainda, contrapondo-se este mesmo ‘porta-papeis’ onde se dispõem horizontalmente profundidades diferentes, conforme a quantidade de tiras em cada pino, ao vídeo no qual maços de folhas em movimento ininterrupto percorrem alternadamente de alto a baixo um quadro já por si verticalizado.

Nesses e nos demais trabalhos, nessas suas propriedades que se dinamizam internamente e são rebatidas no conjunto da exposição, algo se vê com clareza e algo está sempre por ser visto. Denunciando uma certa falta em sua inteireza objetual, anunciam-se como futuro de um espaço nascente ou convivência instável de espaços diversos. Estão, por assim dizer, presididos por uma indicação de continuidade, uma narrativa latente, ou, dependendo do caso, uma vontade de transformação – penso na peça em que uma tora de carvão, uma fina folha de papel e uma chapa de ferro riscada como matriz de gravura parecem se tocar pela primeira vez. Se pudermos chamar tudo isso de tradução, os trabalhos realizam o que realiza um texto (e todo texto é, em algum nível, tradução) capaz de nos mobilizar por suas qualidades intensas de som e sentido, e com elas também propiciar, no instante, o transporte. O ‘dia um’ que nos oferecem seria então como aquele ponto pensado por Kandinsky que, simultaneamente elemento geométrico e sinal da escrita, uma vez ampliado e ‘movido de sua posição utilitária e prática’, produz uma dupla ressonância, ‘um balanceamento de dois mundos’ – que talvez aqui possam se equilibrar *.

João Bandeira

* A frase de Kandinsky em Ponto e linha sobre plano é, na tradução de Eduardo Brandão: ‘um balanceamento de dois mundos que nunca poderão se equilibrar’.

 
 
by artebr.com