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DECLIVE

Dizem que se todas as pessoas da Terra resolvessem dar um passo para trás ao mesmo tempo, o planeta sairia de órbita. Isso é improvável. Todas as pessoas juntas, calculando uma média de 80 kg por pessoa, pesam cerca de 480 bilhões de quilogramas. O peso da terra foi estimado em seis sextilhões de toneladas. Mas não importa a veracidade da história. Imaginar todas as pessoas, em todas as partes do mundo, na Nigéria e na Mongólia, parando ao mesmo tempo tudo o que fazem todos os dias, ir ao banheiro, escovar os dentes, fazer a bolsa de valores subir ou cair, descobrir uma nova droga para a cura do câncer, todas elas juntas dando um passo para trás, é muito bonito. E se não tira a terra de órbita, deveria tirar.
E por que é também tão impressionante saber que um pica-pau, agora de verdade, bicando lentamente uma grande árvore, é capaz de derrubá-la inteira?
E que fios enovelados, labirínticos, pretos, como pessoas falantes, mulheres fofoqueiras ou o silêncio do fazer puro, seguram um plano branco, pesado e pacífico?
Alguém poderia dizer: é a beleza da persistência e da paciência. Só assim o fraco derruba ou sustenta o forte.
Mas não é isso. Minhocas e ervas seguram sim uma montanha. O movimento segura o repouso. O inesperado pode sustentar o previsível.
O que nos atrai em Declive não é a paciência. É a mágica sem mágica. O leve do pássaro, certeiro, ou o leve da pluma, que flutua aleatória? O peso do chumbo, maciço, ou o peso do tempo, acumulado?
Se o plano está sus-penso, é porque sob (sous) sua pendência algo o mantém. No caso de Declive, com a delicadeza e a inteligência de minhocas que entram e saem, pessoas que dão um pequeno passo para trás na Jamaica ou na China, Edith grampeando fios que vão e vêm.
O que sustenta a suspensão íntegra , mas sempre por um triz, é também a tensão. O movimento sustenta o repouso, mas é na alternância do movimento que ele o mantém. O segredo da suspensão é o ponto que separa e une os fios ao plano. É por isso que nos sentimos seguros e sob ameaça. Seguros sob os fios, ameaçados pelo plano.
Não é à toa que fiar é também crer. É preciso não só saber o que vemos, mas é também preciso crer nos fios.

Noemi Jaffé

 
 
by artebr.com