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CASULO

Quando você tenta vedar um pacote aberto de biscoitos torcendo a parte vazia para que os biscoitos não murchem, ele inicialmente fica tensionado na posição que você o coloca. Mas com o tempo o plástico enroscado vai cedendo mais e mais, desdobrando-se à força da própria matéria, rebelde à forma a que foi imposto, até se abrir, deixando inevitavelmente os biscoitos amolecerem. Ele não recupera mais a forma original, embora tenda a isso; mas também não se mantém no ponto de torsão em que o colocamos. Resulta uma forma híbrida entre a nossa vontade e a vontade do plástico.
Os trabalhos mais recentes de Edith Derdyk ostentam esse embate pendular entre a energia potencial (acumulada na matéria; o pacote de biscoito com a extremidade enrolada) e a energia cinética (que se transforma em movimento; o plástico se desenroscando, no decorrer do tempo). Plástico (branco ou transparente) enrolado enrolado enrolado, amarrado amarrado amarrado com linha preta, depois dobrado e reamarrado e reenrolado até o excesso. Depois cedendo e tendo um ponto exato de seu desdobramento fixado com mais e mais costura e congelado com resina transparente; somado a outro rolo que se enrosca nesse e adquire outra forma, que é amarrada e costurada, e entre eles se abrem vãos que levam os olhos a labirintos internos que parecem querer desenroscar-se o tempo todo. A um ponto em que a forma consumada parece ao mesmo tempo a que se dá a esses rolos plásticos e a que eles atingem, dentro das possibilidades que almejam, quando tendem à distensão. Submetendo a “moldagem” às potencialidades da matéria no espaço/tempo.
Começou com o papel se rasgando. Após desenhar por muitos anos, depois também de desenhar com a linha (somando seu sentido material ao seu uso – linha feita de linha) como se bordasse a superfície do papel, Edith começou as abrir cortes, recheando-os de linha preta, num gesto paradoxal – rasgar para aparecer a costura por baixo do rasgo (não a costura do rasgo, mas uma costura sob o rasgo), como suturas cirúrgicas nas camadas de pele mais profundas. Resultavas em sugestões orgânicas, muitas vezes sexuais (bocetas, rasgos, rachas; a obscenidade de pelos internos sob a pele imberbe e branca do papel). Aí esses rasgos foram inchando, como se os pontos inflamassem. As chagas que Edith abriu de repente se tornaram tumores, com relevos cada vez mais acentuados. Bulbos escuros que saltavam de dentro da pele translúcida e delicada do papel de arroz, com suas linhas escuras guardando algo prestes a vazar. Como se os papéis fossem corpos vivos, de dentro dos quais, dependendo da profundidade do corte, vísceras teriam de saltar.
E a matéria, já não se contendo, saiu para fora do plano. É impressionante como, no trabalho de Edith, é clara essa passagem do bi ao tridimensional. O que era desenho foi aos poucos (e diversos trabalhos ilustram as gradações dessa progressão) se tornando escultura ou instalação, por uma necessidade natural do próprio uso da matéria. Da saturação dela no plano, surge o relevo, como um feto (e a imagem do feto vai permanecer sugerida nesses trabalhos, onde a resina-placenta entra como um novo elemento que ao mesmo tempo sedimenta e deixa ver a torsão – de plástico, linhas e papéis amassados) em crescimento. O que continha parece dilatar cada vez mais, sob a pressão de um volume que vai se acentuando mas continua contido, aumentando a energia acumulada (quanto maior a energia potencial, mais prestes de se transformar em energia cinética).

O casulo não se rompeu, o pus não vazou, o feto não nasceu. Estão agora cada vez mais perto de sua explosão, por isso passaram a independer do papel; do plano; da concepção daquilo enquanto desenho. E foram para o ar. Alcançaram dimensões maiores e passaram a dialogar com o espaço. Ganharam leveza, sem perderem a tensão.
O plástico, em algumas de suas variações, foi o material escolhido para abarcar o anseio que decorreu quando esses abcessos incharam a ponto de não caberem mais pendurados numa parede., As costuras passaram a envolver longos rolos de plásticos. Como veias ou intestinos se enroscando, sempre, sempre brancos ou transparentes, ou explorando as múltiplas colorações entre o branco (ou, os brancos) e as transparências. E as linhas pretas de diferentes espessuras, obsessivamente acumuladas em vários níveis de costura, impondo dobras ao plástico, como camadas sucessivas de um corpo que parece querer sair, mas que é na verdade feito dessas mesmas camadas.
Num gesto inverso à ironia de Christo, que envolve grandes monumentos já existentes, o interior dos casulos de Edith parece ser composto de sua própria superfície. Como um embrulho que embrulhasse o próprio embrulho, sem segredos ocultos, órgãos internos, ou biscoitos para serem conservados.
Ao independerem do papel, nesse salto para o espaço, o lado de dentro e o lado de fora de suas peças viraram a mesma matéria, que envolve e é envolvida. Nos espaços internos que se abrem, entre as dobras e curvas dos rolos plásticos amarrados, o olho visita cavernas feitas da mesma substância que se vê no exterior. Plástico e linha recheadas de plástico e linha. Branco e preto recheado de branco e preto. E o “querer se desdobrar” do plástico sendo a condição de sua forma adquirida, com excessivas camadas de costura, que por sua vez tendem a ceder. Contenção de forças que transforma matéria inanimada em corpo vivo, o tempo todo não se movendo por um triz.

Arnaldo Antunes
poeta e compositor

1996

 
 
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