Densas, no limite entre a materialidade pura e a representação, as pinturas de Deborah Paiva vêm depois de toda arte moderna e atestam que a pintura agora, destituída de todos os compromissos ( inclusive daquele de denuncia de sua proporia morte), pode existir em sua plenitude, voltada apenas para a expressão de si mesmo.
Afirmar que a pintura da artista vem depois da pintura moderna é quase um truísmo, é fato. Afinal a melhor e mais significativa produção pictórica da atualidade apenas ganha interesse se deixa explícita nela mesma a consciência de ter vindo “depois”. Porém, depois da pintura modernista ( com todas as vertentes antagônicas), retornar a própria é um ato que corre o risco de se tornar irremediavelmente datado. Isso se o artista não souber tirar partido de toda a história da própria linguagem pictórica para daí, dentro desses limites ora precisos, ora esgarçados, conseguir construir com seu próprio vocabulário formal, deixando que o resultado do ato exercido sobre o suporte da tela com todos os seus condicionamentos e possibilidades se expresse enquanto realidade autônoma frente aos olhos do expectador.
Observando as pinturas recentes de Deborah Paiva notam-se ali ressonâncias das obras de Iberê Camargo e Jasper Johns. A presença da primeira fica visível nas representações (ou melhor, nas alusões) de figuras “fosseis”, para a artista. Como em muitas obras do pintor gaúcho nota-se na pintura de Deborah Paiva momentos onde a expressão autônoma da pintura se sobrepõe com vigor à representação ali configurada que, como sulcos de água na terra ressequida, se amalgama na matéria pictórica, confundindo-se com ela, tornando-se matéria também.
Só que por estar se constituindo após a obra de Iberê Camargo (e de todos os expressionistas), da pintura de Paiva estão banidas a angustia e a violência presentes na obra do colega mais velho. Um dos pontos mais altos atingidos pela arte brasileira, a obra de Camargo acreditava ainda na pintura como expressão da personalidade do artista, de seu desencanto e pavor diante do mundo. Já nas pinturas de Deborah Paiva o que ali se expressa é a própria pintura.
Se nas telas de Iberê Camargo o “assunto” acabava se transformando na própria matéria pictórica, pela sofreguidão das pinceladas, pela virulência da matéria pastosa como que invadindo todo o campo, nas telas de Deborah Paiva, o “assunto”, desde o inicio já é a própria matéria com que ela age. Ali as áreas de cor vão sendo constituídas paulatinamente por acréscimos meticulosos de pinceladas ritmadas e, em sentido contrário, por um “desbaste” da matéria já existente. Pode-se dizer que Deborah Paiva pinta e esculpi suas pinturas e é nesse processo de ir com dificuldade acrescentado e retirando a matéria do corpo da obra que reside o verdadeiro “tema” da produção da artista.
A produção de Paiva celebra a pintura enquanto corpus de conhecimento autônomo dirigido apenas para a percepção do observador. Ao contrario daquela de Iberê Camargo, ela não pretende expressar nada alem dela mesma, reivindicando o seu lugar no mundo como um anteparo ao olhar.
O fato da pintura da artista não desejar transmitir nenhuma moralidade (condição fundamental da obra de Iberê Camargo e seus parceiros modernistas), de seu compromisso ser apenas com o olhar (um olhar táctil), isso não quer dizer, por outro lado que guarda a ironia das pinturas de Jasper johns, que parece ter usado todo seu conhecimento do processo pictórico para escarnecer da própria linguagem.
Embora a obra de Johns tenha surgido igualmente “após” e como reação àquela pintura modernista catártica e avassaladora, que teve seu apogeu no expressionismo abstrato, sua pintura também sempre guardou uma espécie de negatividade, denunciando não propriamente os desencantos do artista perante a realidade exterior, mas sim o vazio e os supostos estertores da pintura de fundo expressionista entendida como uma linguagem corrompida pelo ego dos artistas e pelo circuito de arte.
Não, a pintura de Deborah não se pretende como manifestação do puro desconforto de sua autora perante o mundo, também não tem os mesmos propósitos críticos da pintura de Johns. Não quer ser a crítica da pintura enquanto instituição, não quer denunciar sua morte, seu esgotamento embora certos procedimentos usados pela artista tenham relação próxima com o resultado de algumas pinturas de Johns. Deborah Paiva não assume também essa outra moralidade visível na obra do artista norte-americano.
Densas, no limite máximo entre a materialidade pura e a representação, a produção da artista não aceita mais a noção de pintura como forma de julgar o mundo, ao mesmo tempo que se nega a denunciar e a julgar a pintura como linguagem falida. Sua produção reivindica apenas a expressão completa da linguagem, dando provas de que pintura ainda significa e que continuara significando enquanto os artistas souberem demonstrar seu caráter imprescindível a cada obra finalizada. O que é o caso dos trabalhos de Deborah Paiva.