Desde que o espaço pictórico, no inicio do século, tornou-se condizente com a escrita, as maneiras de escrever em uma tela parecem ser tão variadas quanto às de pintar. Há sempre algo de surpreendente, porém, no modo particular pelo qual uma determinada pintura dá uma nova solução ao problema. Nos Jogos de Deborah Paiva, a direção tomada é de uma simplicidade inesperada e, salvo engano, pouco explorada. As letras meio que brotam de uma massa pictórica monocromática e surgem feito pinceladas que pouco se distinguem das demais. O jogo que se arma, para usar o título que deu a seus quadros, assemelha-se a um esconde-esconde. Ali parece haver uma letra, mas não, mais ali aparece uma que não se desconfiava, e assim por diante. É necessário que a camuflagem que move o jogo funcione. Se trabalhasse com muitas diferenças, as pinturas perderiam o aspecto direto e simples do qual retiram seu frescor. Inversamente um monocromatismo homogêneo impediria o jogo. A uma cor de base amarela, azul, marrom ou areia nos quatro jogos - são desse modo, acrescentadas variações que podem mesmo originar, aqui ou ali, uma segunda cor. Também os jeitos de pincelar variam. Vão do espatulado a pinceladas quase retilíneas e mais salientes que as restantes, passando por formas intermediárias. Há um sentido de economia, porem, nas margens estipuladas para as variações. Elas não são mais amplas do que o jogo exige. Daí que o espaço da pintura também não se mostre apinhado de letras, mas em uma medida que a passagem do pintado ao manuscrito possibilite, igualmente, a legibilidade e o sentimento do indecifrável.
É feliz a escolha do título Jogos para essas pinturas. A palavra “jogo”, sem que perca seu sentido básico de um vai-e-vem, serve tanto para descrever jogos infantis como esconde-esconde ou amarelinha, como é muitas vezes requisitada para tomar parte no vocabulário das teorias que procuram conceituar uma obra de arte. O aspecto imediato das pinturas impede, felizmente, que se veja ai uma tradução espacial de uma teoria estética. Se são obras de arte, e dão o que pensar não é pela ilustração de nenhuma idéia. Já o que mostram de trabalhado, de, diga-se, uma simplicidade sofisticada, também impede que o jogo caia em uma dimensão apenas cotidiana. É um vai-e-vem entre uma coisa e outra, para aproveitar a expressão, que as pinturas se situam.
Em um jogo corriqueiro, as emoções estão demasiado voltadas para seus objetivos, para que se veja o jogo como tal, na sua generalidade. Por outro lado, o conceito de jogo é ralo e inexprimível visualmente. Um jogo visual ao mesmo tempo artístico necessita, de algum modo particularizar-se. O das pinturas de Deborah Paiva se faz por um meio termo entre pintar e escrever e propõe ao expectador uma experiência entre o ler e o ler. Uma experiência de inicio quase banal, é verdade, mas que vai se adensando conforme se olha e se é deixado levar pelas pinturas. Por que uma letra aqui? Por que não outra ali? Por que só às vezes há palavras inteiras? E uma inteira, senhora do seu significado, valerá mais do que o resto? Não é uma palavra como outra qualquer? O local em que o sentido brota mais cheio será o local em que ele não esta pleno? O esconde-esconde é mais complicado do que à primeira vista parecia? Contraposto à palavra que se formou não estará o sentido muito mais na cor que abafada pelos sinais, já não pode de todo ser vista? Ou no vai-e-vem entre ambos? E o jogo, que talvez possa ser denominado “O jogo do há sentido”, prossegue.
Já se é uma etapa da obra da artista que também prosseguirá é uma outra questão. O que importa, agora, diante desses quatro quadros é o sentimento de que o jogo foi bem jogado.