voltar    
Sobre o mesmo e a diferença

No Futurismo russo do início do século XX, um dos temas que rondava os trabalhos de seus participantes era o que Marjorie Perloff (em conhecido estudo sobre o tema) chamou de “consciência mais alta” da quarta dimensão. O termo tem origem no estudo matemático-místico de Upenski (Tertium Organum, 1911). Ir tão longe para abrir um texto sobre a atual exposição de Deborah Engel é fundamental para alcançarmos a liberdade necessária que suas imagens nos oferecem. A quarta dimensão, para além de suas referências teóricas e acadêmicas do âmbito da Física, foi tema central dentre vanguardas não só na Rússia futurista, como em outros locais e obras. Ao extrapolar os limites do senso comum do nosso olhar, a quarta dimensão torna-se um espaço quase poético, situado entre o delírio, a ciência e o misticismo.

Não precisamos, porém, necessariamente destas perspectivas para discorrermos sobre a exposição. Aqui, a quarta dimensão é uma apropriação poética para darmos conta desse espaço que se move. Deborah utiliza as fotografias a partir de uma chave que, contraditoriamente, nos desloca e nos prende à leitura dessas imagens. Nosso olhar torna-se espécie de eco, perspectiva em loop, sublinhada pelo título do trabalho: Loco in Loco – algo como escavar um duplo imagético dentro do local que se observa. Só que esses loops de Deborah trazem encapsulados um fino efeito de fade, isto é, de algo que cresce ou diminui através do tempo. São fotos de um mesmo espaço que, em uma operação sutil, porém incisiva, crescem diminuindo – ou diminuem crescendo, dependendo do que imagina o observador. O fade das imagens em loop faz com que o espaço crie automaticamente uma relação com o tempo (a repetição em deslocamento), uma espécie de mesmo que se reinventa a cada camada.

Pois a operação, e isso é importante dizer, não apresenta somente a fluidez desses “mesmo-diferentes” cuja repetição hipnótica prende os olhos na medida em que nos intriga e nos ilumina. Essas imagens também trazem, muitas vezes, ruídos que rompem o plano perfeito, a geometria impecável. São ruídos próprios dos seus elementos sobrepostos. Somente quando nosso olhar é convencido de que proporções serão perfeitamente respeitadas, quando finalmente aceitamos a promessa das imagens e tentamos entender como o chão aos poucos se expande em parede, ou como o teto aos poucos vira ponto infinito, é justamente aí que surgem os ruídos. São incongruências, perversões da geometria, sobreposição de objetos, torções da luz, invenção de sombras. Esses ruídos são a prova de que Deborah, para além da foto, se permitiu interferir como uma editora de suas próprias visões. Seu espaço movente, portanto, tem uma artista assumindo os riscos de alimentar a máquina que o faz mover.

Usei acima o termo “incisiva” para falar dessa operação de deslocamento e afirmação do mesmo pois Deborah faz essas fotos e fotos-esculturas com uma técnica básica: corte e cola. Após ter o enquadramento perfeito dominado pela máquina, a fotógrafa sai de trás da câmera e, como em outros trabalhos recentes (Paisagens possíveis, 2010), interfere diretamente com seu corpo na (des)organização dessa superfície. Superfície cujo desmonte e remonte cria um novo espaço de múltiplos planos a partir de uma matriz só. Tal referência estável que se espirala conectada por mínimos detalhes tênues de continuidade (uma viga, um lustre, um piso, uma janela, um corrimão) é construída organicamente. Deborah assume a ação plástica e estrutura essas fotos à mão, colando camada sobre camada, sem poder voltar atrás. Nesse momento do trabalho, a segurança do dedo que dispara a máquina contrasta com a insegurança da mão que tateia o momento certo de montar as obras.

Operação incisiva, mas também altamente lírica. Apesar de parecerem espaços limpos e impessoais, todos, ou quase todos, são locais que trazem forte carga afetiva à artista. Eles envolvem memória, família, experiências pessoais, monumentalizações desses locais em uma produção infinita deles. Reforçar as imagens como se reforçasse o amor por elas e por tudo que múltiplas vezes (quantas vezes você foi ao MAM? Quantas vezes fitou a parede da sala de sua casa? Quanto tempo perambulando pelo Capanema?) ocorreu ou ainda ocorrerá (quantas vezes você foi ao MAM? Quantas vezes fitou a parede da sala de casa? Quanto tempo perambulando pelo Capanema?). Assim, cada uma das imagens se multiplica para fora (do plano, da dimensão, do olhar) e para dentro (do afeto, da história, da vida).

O espaço que se move, portanto, não é apenas o nome desta exposição. É também a constatação sensível do que você, público, atravessa quando se depara com as imagens construídas por Deborah Engel. Espaços iguais que se movem em direção à diferença. As simultaneidades de planos em expansão abrem caminhos para que possamos olhar o mundo à nossa volta com a certeza de que, se não sabemos exatamente o que é a quarta dimensão, ao menos podemos entender sua dimensão poética. A partir desses vazios infinitos, podemos ver o mesmo mundo de sempre em uma nova perspectiva. Deborah nos mostra que, mesmo com olhos vagando por uma era plena de excessos imagéticos, inventar um olhar sobre o mundo ainda é uma aventura experimental.

Frederico Coelho

 
 
by artebr.com