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A antecâmara da contemplação

NAbaixo de uma imagem de blocos coloridos com as bordas borradas, a edição de março de 2011 da revista norte-americana ARTnews anunciava: “A nova fotografia”. A imagem, uma fotografia de alta complexidade da artista canadense Jessica Eaton, foi feita a partir de 108 exposições de um negativo diante de um cenário criado no ateliê da artista com blocos coloridos reais. Além da múltipla exposição com chapas metálicas contendo pequenos orifícios interpostas entre a objetiva e o objeto fotografado, a artista também derrubava a parede de blocos e os rearranjava entre uma e outra exposição. “É um registro do acaso ao longo do tempo e, de acordo com Eaton, encena a observação de Sol LeWitt de que a ideia se torna uma máquina que faz arte”, afirma a autora do artigo na ARTnews acerca da obra.

A menção a LeWitt não é gratuita. Muita da produção pós-fotográfica, pós-Picture Generation, pós-produção ou “studio-based” – conforme as várias designações que tentam definir o que seria esta “nova fotografia” (na ARTnews como alhures) – adota estratégicas construtivas, concretistas ou minimalistas na construção de novas imagens em um mundo soterrado por imagens de tudo multiplicadas ad infinitum, repetitivas ad nauseum e programadas ad hoc. Na era da desmaterialização da fotografia pelos processos digitais, cada vez faz mais sentido refletir sobre o corpo e a materialidade da fotografia, sua presença física e espacial, assim como, de resto, percebe-se uma repercussão dos dispositivos estéticos da manualidade no universo das artes: a cerâmica, a arte têxtil, a pintura (sempre a pintura).

Este é o contexto da pesquisa de Deborah Engel, artista inquieta com a banalização da fotografia direta, que desde Paisagens Possíveis (2010) vem construindo portais por meio da linguagem fotográfica; ali, uma imagem de revista (empunhada dentro do quadro) "continuava" e completava a paisagem que estava diante da câmera da artista. Em Sur Le Paysage (2013), feita durante uma estadia de alguns meses na França, uma antiga moldura (novamente empunhada dentro do quadro) recorta a cena diante da lente, criando um “mise en abyme” que evidencia a dupla escolha do enquadramento. Loco in Loco (2015) encenou a saída física do enquadramento de dentro do quadro, multiplicando uma mesma imagem em diferentes dimensões, uma sobre a outra, para gerar uma variedade de perspectivas possíveis. As respectivas reflexões sobre o "enquadramento", entendido tanto técnica quanto filosoficamente, vieram desembocar na exposição Plano Imaginário (2017).

Aqui, Deborah torna mais complexa a relação da espacialidade com o duplo (ou múltiplo) fotográfico. As construções de imagem sobre imagem da série Loco in Loco partiam sempre de fotografias de arquitetura – espaços modulares, simétricos, interiores labirínticos etc.; na série Plano Imaginário, que ainda conta com obras de base iconográfica arquitetônica, a artista engloba a arquitetura dos livros: páginas de obras de Sartre, Simone de Beauvoir, Kant, George Orwell, Hannah Arendt são fotografadas e duplicadas em escala maior e menor, e reduplicadas em escala ainda maior ou menor, e assim por diante (a operação de espelhamento varia de 8 a 14 vezes). O “mise en abyme” deste espaço abstrato remete ao mergulho que o leitor vivencia na experiência da leitura.

Um desses trabalhos, o único que não salta para a tridimensionalidade (a artista simula digitalmente os seus portais antes de realizar as ampliações e sobrepor as fotografias manualmente em seu ateliê, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro), que Deborah optou por apresentar como uma imagem chapada, contém um trecho sobre a ideia da contemplação. E foi colocado, na montagem da exposição, na galeria Virgilio, justo antes do fundo da sala, onde é apresentada a videoinstalação Yin Yang (2017), como se a “antessala” do vídeo preparasse o visitante para a experiência de pura contemplação proposta nesta obra audiovisual. No vídeo, a artista repensa a paisagem possível, como gênero artístico e também como arena geopolítica. O que é possível reter da paisagem? Que natureza nos é dada a contemplar, ainda?

Ying Yang coloca em perspectiva toda a exposição, suspende a assertividade do olhar que foi colocado sobre cada obra, convidando a olhar de novo, a saltar no abismo de cada peça do quebra-cabeça montado pela artista. Amanhecendo (2017) e Anoitecendo (2017) seriam abstrações manipuladas no photoshop ou podem conter efetivamente um lastro real, como um efetivo pedaço de céu? É possível nos dias de hoje fazer uma fotografia de céu que não seja absolutamente banal? Quando a ideia se torna uma máquina que faz arte, como na pesquisa recente de Deborah Engel, sim, eis que ainda é viável por no mundo uma fotografia de céu. A nova fotografia.

Juliana Monachesi
maio de 2017

 
 
by artebr.com