Bola da Vez
Abrindo mesa. O pano verde sempre convidando ao mesmo jogo - que no entanto nunca se repete: o colorido das bolas alinhadas à espera de serem postas para correr sobre sua superfície, ativando uma improvável porque graciosa e sempre inédita sucessão de ritmos geométricos, cores em movimento. A lógica mais fria pode sugerir ao incauto uma promessa de monotonia, a partir da cadência e da temporalidade que é própria do jogo; a plasticidade do conjunto, contudo, fala mais alto, garantindo o fascínio e, por que não, o espetáculo. Além disso, há a ritualística envolvida: o talco e o giz, o quadro-negro e o marcador, a aparada na sola do taco com a lixa, o avental e luvas para os que gostam de botar banca... mais que meros prolegômenos, hábitos e acessórios que contêm a aura de uma tradição, do "mundo de dimensões do pano verde de uma mesa de sinuca" de que João Antônio já falava com tanta propriedade.
Bola 2 na caçapa um. Não cai como previsto a branca corre demais, passa do ponto e cola na tabela lateral. Agora é o caso de arriscar, a 5 é sempre uma boa opção. Um corte no meio: caixa. Uma tragada e volta-se à 3, agora bola da vez, caçapa quatro, diagonal no fundo. Pega um pouco de quina mas vai; isso também é do jogo, embora a mesa não tolere muitos erros. Tabelas novas, borracha tinindo, o feltro recém-trocado, demora a se pegar o tempo da bola.
Desde a primeira tacada, entram em cena uma batelada de fatores: raciocínio, precisão, erro, estilo, destreza, confiança, frieza, visão de jogo, fair play... e, para quem é do ramo, malandragem, sobretudo quando a coisa é a dinheiro. Bem, e há a física, claro: sempre esperando ser contrariada por tacadas impossíveis, bolas que são cuspidas...como se não houvessem tabelas, espetos, efeitos, puxadas e outros recursos que em sinuca chamam picardia, lembra novamente o cronista de uma São Paulo que hoje parece tão remota. Mas a sinuca resiste. Tudo envolto pela atmosfera soturnamente descontraída e esfumaçada do salão. Jogo cerebral, jogo de coração, feito de polaridades: razão e sensibilidade, ataque e defesa, lógica e acaso, ruído e silêncio, equilíbrio e desespero se alternam no final do taco.
O jogo agora é a 7, a matar mas defendendo; e paga-se o preço da insegurança, nem uma coisa nem outra. A mesa fica aberta. A próxima tacada demora a chegar, quase o tempo de um cigarro inteiro, bem fumado. Mau sinal. Retorna à mesa na bola 6. Bola de três tabelas, rodando a mesa e caindo no meio. Tac-tum-tum-tum: sua trajetória descrevendo quase um polígono perfeito, um retângulo áureo. Não cai, mas é sempre uma bela tacada a se tentar. Ao travar a branca, acaba por defender involuntariamente. Não chega a trancar a mesa, mas ao menos a bola da vez não fica em posição confortável.
A cachaça está acabando; a cerveja ainda não veio. Pensa em por que diabos toda casa do ramo ostenta aquele mesmo tipo de adereços kitsch, as invariáveis reproduções de simpáticos cães embora antropomorfizados de maneira um tanto bizarra estranhamente entretidos em partidas de bilhar ou de baralho... No marcador, as contas mudam de lugar, deslocadas pra lá e pra cá; os sinais a giz alterando-se a cada partida, reaparecendo.
Mas o jogo é jogado. Percebe que a bola 6 por algum motivo permanece na mesa. Dá-lhe uma sarrafada, com um bocado de efeito negativo na branca - ela atravessa o feltro diagonalmente como um bólide rosáceo para despencar no buraco três, o do canto à direita. A tacadeira fica mal parada. Agora é preciso fazer a 7 na seqüência, para que ela retorne à mesa e aí então metê-la novamente; é a única chance. Ela cai sem convicção, e a branca, ainda menos convicta, rola incerta até parar à beira da caçapa oposta, a de baixo, escondendo-se caprichosamente entre as quinas, tirando qualquer possibilidade de angulação viável. Sinuca de bico. É o nome do jogo, afinal embora não se suponha que vá ser auto-infligida. De certo modo é uma tacada fácil, pois não há muito o que se pensar. A situação é duramente simples: um milagre, ou partida encerrada - e de milagres se desconfia e a sinuca não comporta. Seja como for, não se ganha o jogo o jogo ganha sempre. Na vida como na arte, dirão alguns, provavelmente com razão. Embora aqui seja difícil apontar onde termina um e começa o outro.