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Verde, vermelho. Vermelho, verde.

Estas cores familiares têm função de alerta nos semáforos de qualquer lugar, e são indispensáveis em navios e aviões. Vermelho a bombordo (esquerda), verde a estibordo (direita). Assim as luzes de posição invariavelmente são colocadas, para o tripulante ou passageiro embarcado, voltado para a proa, no sentido do deslocamento.
No ar e no mar cada semáforo está em movimento, a menos que esteja repousando no local de destino provisório. Se o tripulante avistar à sua frente vermelho à direita e verde à esquerda, significa atenção redobrada, cursos contrários, risco de colisão, manobra evasiva para evitar o desastre.

A diferença de pontos de vista e sentidos de deslocamento produz diferenças inesperadas. A mesma rota, a mesma rua, percorridas em sentidos opostos, apresentam o mesmo sob luzes divergentes e paralelas, rotineiras e surpreendentes. No curso dos dias comuns, no entanto, os riscos e as possibilidades não costumam ser assinalados com tanta clareza, nem seguem um código inequívoco, pedindo mais atenção aos eventos mudos. A todo momento, em algum lugar, uma situação merece registro, pela escrita, pelo desenho, pela fotografia, pela memória, apenas pelo olhar, por tudo isso, pela simples presença.

Fotografias, estampas, miniaturas, imagens digitais, são mais que ecos da coisa única: tem sua existência particular. Migram muito mais que sua referência, pela leveza, multiplicidade, materialidade mínima. A imagem pode ser tênue presença do que já não existe, já mudou definitivamente, encontra-se fora do alcance dos olhos, ou, ainda, a única visão possível do que jamais veremos. Aqui, de outro lugar, o ausente ganha o mesmo relevo dos fatos imediatos – e às vezes mais.

Em portos e aeroportos, presença e ausência se sucedem. Exibe-se temporariamente o desenho de cascos e mastros, asas e fuselagens, resultado da pesquisa científica e tecnológica. Mas os interesses da economia moderna e contemporânea foram exigindo dimensões titânicas dos meios de transporte. A experiência direta das massas atracadas e pousadas, em cais e pistas de decolagem, oferece uma relação de escala à visão e ao corpo que esculturas raramente atingem, e a imagem não capta. Certos lugares, para quem antevê arte onde ela não deveria estar, projetam cursos imprevistos, mesmo em mapas conhecidos.

O resto é mar.

Marco Buti

* Texto do folder da exposição Lugar Comum, SESC Belenzinho, de 05 de abril a 22 de junho de 2014, em São Paulo.

 
 
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