voltar    
Sobre “Sans”

Um aspecto chama de imediato a atenção na série “Sans” (2011-2013): o contraste entre o tratamento requintado das imagens e a banalidade dos referentes que atraíram o olhar de Celina Yamauchi. Gradações tonais sutis, um jogo elegante de luzes e contrastes, a coesão entre sombra e matéria são colocados a serviço de temas triviais, transformando a aparência em aparição. Registro e criação acabam por fundir-se nessas imagens, as quais demonstram que, ao longo das várias etapas do processo fotográfico, ocorre um aparente paradoxo assinalado por Jean-Claude Lemagny: a coexistência de uma carga de mistério com um suplemento de presença. Uma declaração da artista permite calçar essa observação. Ao explicar o título da série, que se inspira na expressão francesa “sans couleur”, Yamauchi lembra que tal escolha carrega consigo uma ideia de ausência e de negação. O que é, de fato, central no percurso visual que norteia “Sans” é a investigação realizada sobre os limites da subtração da cor num conjunto de fotografias digitais, cujas impressões em papel de algodão são consideradas “como campos-de-prova, campos de experimentação e transformação de uma mesma imagem”.

Esse tipo de observação permite pôr em evidência o fato de que o processo fotográfico não se resume à tomada, à escolha de um aspecto da realidade. Ele implica ainda a seleção de determinadas imagens e sua posterior impressão, isto é, a determinação, por parte do fotógrafo, da aparência que estas deverão ter. O uso de uma câmera digital traz uma mudança substancial nesse processo, que se aplica sobretudo à segunda etapa. O contato fotográfico que, no modelo analógico, representava o momento de seleção do que iria ser ampliado e impresso, é substituído por uma visualização imediata do resultado da tomada. Isso leva Yamauchi a afirmar que a presença de uma câmera digital no processo ativa nela “certa postura analítica, muito diferente do que vivenciava com a manipulação das imagens em papel”.

O uso da câmera digital permite analisar “Sans” a partir de duas observações emprestadas de Mario Costa: a ideia de que as imagens se organizam de acordo com uma lógica interna; a percepção de que a temporalidade na qual elas vivem tende para a espacialização e para a anulação do tempo exterior. O fotográfico, nessa perspectiva, afirma-se de maneira integral, assumindo todas as qualidades intrínsecas a uma superfície sensível, cuja principal característica é ser moldada pela luz.

As imagens de “Sans” trazem a marca da “composição criativa”, apresentada por László Moholy-Nagy como aquela modalidade de fotografia que não se limita a ser uma “cópia” do referente exterior. Acreditando que a capacidade de manipular a luz era um atributo exclusivo da imagem técnica, Moholy-Nagy enfatizava a necessidade de dar realce à reação de estruturas, texturas e superfícies à fonte luminosa. Absorção, reflexo, espelhamento e efeito de dispersão da luz reverberam nas imagens de “Sans”. Próxima do conceito de Lemagny de que a fotografia é a arte de transformar em “matéria concreta o nada da sombra”, Yamauchi demonstra uma atenção particular pela captação de jogos luminosos. Com eles, vai configurando imagens ora saturadas de tons escuros (Sem título n. 1, n.8, n. 18, n. 20, n. 22, n. 24 e n. 25), ora mais rarefeitas, por estarem baseadas numa sutil gama de cinzas (Sem título n. 11 e n. 14). Em outros momentos, são texturas carregadas de uma plasticidade peculiar, modelada por contrastes tonais, que se impõem à atenção do observador (Sem título n. 4, n. 8 e n. 23). Em outros ainda, a artista tira proveito de reflexos e espelhamentos (Sem título n. 2 e 7). Em algumas imagens, o referente é apresentado como um campo luminoso, no qual se inscrevem contrastes ora marcantes (Sem título n. 3), ora sutis (Sem título n. 15). Uma das fotografias mais felizes nesse sentido é Sem título n. 21, na qual a projeção luminosa cria uma espécie de fotograma abstrato, feito de valores quase impalpáveis.

A ideia expressa por Moholy-Nagy de que a fotografia como arte repousava na sensibilidade pela “qualidade do claro-escuro, do branco brilhante, das passagens preto-cinza preenchidas de luz fluida, da exata magia dos mais delicados valores de superfície” pode ser aplicada a “Sans”, que se propõe como um conjunto de formas estruturadas pela luz e captadas por um olhar atento a todos os matizes de uma manifestação quase imaterial e, assim mesmo, dotada daquela tatilidade visual que Lemagny considera um atributo fundamental da fotografia.

Annateresa Fabris

* Texto do folder da exposição Sans, Biblioteca Mário de Andrade, de 05 de agosto a 16 de setembro de 2014, em São Paulo.

 
 
by artebr.com