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Os desenhos da fotografia
Celina Yamauchi


Se por um breve instante acreditamos que não existe vazio, um sentimento duplo nos invade: de desconforto, pela inexistência de recolhimento, pausas, solidão acalentada, numa convivência intermitente; e de alegria, alicerçada pelo contínuo pneumático das coisas, pelas fricções e por um sentido de irrigação ininterrupta de todos os poros e aporias de nossa existência.

Em seguida, talvez tocados pela impossibilidade ou pela timidez em pertencer a esse grande e infinito órgão, voltamos a animar as ideias em torno das hierarquias e classificações polarizadoras de toda ordem, com seus imensos vazios, propícios aos esquecimentos pontuais.

Quando olho as fotografias produzidas atualmente por Celina Yamauchi, volto a acreditar no mundo como um grande pulmão luminoso, sem paradas, sem zonas de sombras, constatando que “a luz é a natureza comum que se encontra em todo corpo, celeste ou terrestre... é a forma substancial dos corpos, que, quanto mais participam dela, mais possuem realmente e dignamente o ser” 1.

O imediato e a simplicidade na recepção fazem das cores, não excluindo daí os negros, cinzas e brancos, áreas plenas, hostis às sombras, destilando-as para além e aquém dos limites das figuras.

Há uma inervação constante entre o que os olhos emitem e a respiração do grande organismo à sua frente, criando inteligibilidades possíveis do espaço com suas espacialidades, das imagens com suas metamorfoses.

O desenho da fotografia se dá como encarnação do aéreo, como esforço de penetração no movimento do que exala, no céu e na pedra, na pele e no vapor.

São imagens que articulam profundamente o fotográfico, mas se deixam penetrar por outras formas de fabricação, no instantâneo e na meditação.

São de tinta e são de prata.

Claudio Mubarac

1 São Boaventura, O livro das sentenças.

 
 
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