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Notas sobre identidades: memórias, afinidades, rupturas
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“Na fotografia da jovem artista Celina Yamauchi, convidada para a segunda mostra, fica evidente que fotografar implica em construir uma relação entre o olho e o objeto. Nesse sentido, ainda que a imagem represente uma paisagem existente, a aproximação entre a imagem e a realidade tem uma relação tênue, uma variedade de questões plásticas, que rebate no esplêndido resultado formal. O ar rarefeito e a luminosidade matutina arrefecida produzem certo mistério na paisagem sem sombras (as sombras tendem a se confundir com as coisas). A imagem parece ser simples, quase improvisada. No entanto, a técnica e os recursos são complexos: a luz brumosa e o grande formato geram uma monumentalidade em expansão, em que a perspectiva oscila ao ritmo quase geometrizado das rochas no primeiro plano. São formas tencionadas, que não se dão ao olhar em pleno repouso, de maneira inversa da quietude morosa do horizonte marinho. Nosso olhar vaga em direção a esse horizonte tão próximo e tão pouco visível, quase uma abstração. Consciente de que a realidade não existe na fotografia, a artista abre novos significados para a natureza como veículo para a reflexão do expectador, oferecendo-lhe outros dados de percepção e avaliação da realidade contemporânea.

As obras do jovem artista James Kudo presentes no primeiro período da exposição, uma pintura e uma escultura, sugerem, em sua aparente leveza, espaços intercambiáveis e planos imaginários. Não são configurações lineares nem volume virtual, mas fluxos de formas sem narrativa. Lembram paisagens precárias, que parecem indagar sobre outros espaços, sobre topografias desconhecidas, num equilíbrio incerto, mutante. Tendem a estimular o espectador a se aprofundar numa nova percepção da fisicalidade do espaço, num jogo de livre associações. São formas de mapear uma geografia impossível, com interpretações múltiplas, em que o espaço da arte discute as relações entre vida cotidiana, cultura e identidade, em meio aos conflitos do mundo contemporâneo, num movimento quase nostálgico, que oscila entre memórias e rupturas.”

Stella Teixeira de Barros

* Texto do catálogo de exposição O Japão em cada um de nós, realizada no Banco Real, de 05 de maio a 18 de julho de 2008 em São Paulo

 
 
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