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ISTOFOISTOÉ: Sobre as obras de Celina Yamauchi

Embora exista muito sobre o que escrever a respeito do processo de contaminação que a fotografia empreendeu nas várias modalidades artísticas que a antecederam, se excetuarmos o estudo sobre os fotógrafos ligados às vertentes pictorialistas da passagem do século XIX para o século XX, pouco foi visto ainda sobre a contaminação que a fotografia sofreu daquelas modalidades. Talvez a busca da “pureza” das linguagens – o bordão modernista – tenha impedido, ou pelo menos atrasado os estudos sobre a inseminação que uma concepção plástica ou gráfica do espaço e do tempo exerceram, ou exercem, sobre a fotografia mais recente.

É dentro de um sistema gráfico/fotográfico que se insere parte das obras que Celina Yamauchi apresenta ao público carioca. Não é de hoje que a artista estabelece esse jogo entre fotografia e desenho. Desde o início de sua profissionalização ela estabeleceu como um dos eixos constitutivos de sua poética a problematização do ilusionismo fotográfico quer pela intervenção direta do desenho sobre a fotografia, quer pela justaposição de ambos num mesmo trabalho.

Os desenhos, quando acoplados às fotografias, retiram delas o que, de modo geral, mais as singulariza: o caráter descritivo, imantado por uma intenção de neutralidade que busca o anonimato, o não-autoral. Os desenhos, por sua vez, mais agitados, sublinhando direções, registrando gestos de estranhas obsessões, criam um estado de desconforto no observador: eles trazem a imagem resultante da acoplagem para o plano do concreto, estipulando uma percepção não ilusionista. Eles atestam que o que está ali na frente dos olhos do observador é uma representação, uma imagem artificial repleta de códigos. O “isto foi” barthesiano da fotografia, torna-se o “isto é” de uma ação artística que dessacraliza tanto o código fotográfico quanto o código do desenho. E essa ação não recalca o caráter poético das imagens resultantes das justaposições propostas por Yamauchi. Pelo contrário, parece que é a partir da consciência adquirida do poder transformador dessa ação empreendida pela artista que o observador sente-se livre, então, para embarcar na proposta que é, fundamentalmente, explorar os limites entre a representação do espaço tridimensional pela fotografia e a ênfase à bidimensionalidade presente no gesto gráfico. Isto se dando concomitantemente.

Tal ação de Yamauchi tende a ganhar uma complexidade ainda maior quando, ao invés de “contentar-se” em acoplar uma fotografia a um desenho, opta, por exemplo, pela acoplagem de duas ou mais fotografias e um desenho. Se a problemática do gap temporal entre uma fotografia e outra já, por si mesmo, detona o poder poético da imagem resultante, a justaposição do desenho – trazendo a questão do tempo para ser vivenciado no “aqui e agora” do registro gráfico e não no “isto foi” da fotografia – potencializa ainda mais o poder das imagens reunidas num único trabalho, colocando essas ações de Yamauchi dentro do rol estreito as produções mais inteligentes da arte atual.

Mas esta mostra não apresenta apenas este eixo da produção da artista. Em alguns dos trabalhos expostos, a Celina parece buscar o gesto gráfico dentro da própria imagem que ela capta com a câmara. Os resultados – ver sem título, 2007/2009 (108x72cm) e sem título 2007/2009 (72x108cm) – poderiam estar em qualquer antologia fotográfica nacional ou internacional.

Talvez o peso de já sabê-las clássicas fosse excessivo para uma jovem artista, se ela tivesse produzido apenas fotos como essas, em que o desenho se faz apenas com a luz. Mas existem os outros trabalhos ao lado desses, e toda uma trajetória felizmente ainda em devir e que, com certeza, só irá corroborar a excelência desses trabalhos agora apresentados ao público do Rio de Janeiro.

Tadeu Chiarelli 1

1 - Crítico de arte, Chefe do Departamento de Artes Plásticas, ECA-USP.
* Texto do catálogo de exposição Celina Yamauchi - fotografias recentes, Galeria Laura Marsiaj, de 12 de agosto a 12 de setembro de 2009, no Rio de Janeiro.

 
 
by artebr.com