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Celina Yamauchi: Falsas Narrativas

“Se analisadas em separado, cada foto de Celina Yamauchi, parece se comportar dentro de um único eixo. Nítidas, elas descrevem pedaços da realidade circundante (trechos de paisagem, partes de objetos). No entanto, aí existiria uma bifurcação. A nitidez que as caracterizam nem sempre confere a todas a objetividade, a relação “orgânica” com o referente.

Se em muitas o observador detecta, e rapidamente desvenda, o que representam (um vegetal; uma criança; um muro), em outras, por retratarem pedaços do mundo a partir de uma frontalidade quase absoluta, transformam em índice impreciso aquilo que deveria (ou poderia) ser uma imagem de fácil decodificação. (Muitas delas são fotos de desenhos realizados pela artista).

No processo de construção de seus trabalhos, Celina quase nunca apresenta essas imagens isoladas. Pelo contrário: tem sempre como prática acoplar duas ou três fotos de origens diversas aparentemente formando curtas narrativas. Em alguns trabalhos, acrescenta interferências gráficas em uma das fotos.

O uso reiterado de três imagens para a produção das peças remete a produção da artista para o universo da narrativa, mas, igualmente para aquele da montagem cinematográfica e, desse último, para outros universos mais antigos e, talvez, mais proximamente relacionados à sua memória ancestral: o ideograma chinês e o haicai japonês.


Analisando os trabalhos de Celina, nota-se que nenhuma das imagens de seus trípticos pode ser entendida como “conseqüência” ou como “síntese” das outras duas. Talvez mais próximas dos ideogramas, as “centelhas” percebidas em seus trabalhos – ou seja, a imagem que parece ter sido detonada pelas outras duas – não necessariamente é a última, (se fôssemos perceber os trípticos a partir de uma leitura ocidental, realizada da esquerda para a direita). Em muitos deles, a “centelha”, pode ser a segunda ou mesmo a primeira.

Tal característica permite pensar que os trabalhos não podem ser entendidos como pequenas histórias, ou como texto, no sentido convencional do termo. Estariam mais próximos, é verdade, dos ideogramas, e não propriamente das narrativas, uma vez que não possuem essa temporalidade requerida pela literatura ou pelo cinema convencionais.

Falsas narrativas, o uso de mais de uma imagem fotográfica não significa, no caso dos trípticos de Celina, que a artista busque suprir em seus trabalhos supostas carências da fotografia. Para ela, a junção das imagens, mais do que contar uma história, de narrar uma fábula constitui cristalizações de estados poéticos, flashes de lirismo que se concretizam em imagens e por causa delas.

Nenhum de seus trípticos se explica através de outro, como tendem a se explicar as fotos que compõem ensaios convencionais. Cada um é um, todos são únicos. Nada é supérfluo, fruto de meras divagações. O estágio poético alcançado nesses trabalhos, às vezes se dá também pelo acaso, sempre tão protéico para a arte (todos podem imaginar as inúmeras possibilidades que a artista testa em seu ateliê, antes de optar por uma determinada combinação). Mas desse acaso não está descartado o olhar sensível que enquanto joga, edita, enquanto edita faz arte, faz poesia em forma de imagens.

Tadeu Chiarelli
setembro - 2004

* Texto da exposição realizada no Itaú Cultural de 22 de setembro a 24 de outubro de 2004 em São Paulo

 
 
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