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A paisagem possível ...


“ ... permanecer na memória ponto por ponto, na sucessão das ruas e das casas ao longo das ruas e das portas e janelas das casas, apesar de não demonstrar particular beleza ou raridade. O seu segredo é o modo pelo qual o olhar percorre as figuras que se sucedem como uma partitura musical da qual não se pode modificar ou deslocar nenhuma nota.”
Italo Calvino

Privilegiar a exploração do espaço da natureza como motivação e, a ausência da referência corporal, constituem-se na matéria a partir da qual é construído o universo visual e a discussão proposta por Celina Yamauchi. O procedimento fotográfico tem, ao longo dos últimos tempos, acompanhado e direcionado a pesquisa da artista. O olhar “fotográfico” recebeu forte legado da gravadora/ desenhista que, desde suas propostas iniciais, em um processo de recuperação do imaginário da paisagem, propõe um jogo com o observador.

Inicialmente a gravura compreendia grandes blocos de madeira que, com sua superfícies, se propunham a dar conta da amplidão dos horizontes. Céus e terras pousavam em luz e sombras sobre o branco do papel: extensas linhas que rasgavam o horizonte do olhar a se interpor entre nossos olhos e a realidade. Cravadas na madeira e a seguir gravadas nas alvas superfícies, as linhas já continham, a partir deste instante, o elemento norteador deste percurso.

A incorporação da linguagem fotográfica, na etapa seguintes da pesquisas artista, afirma o desenho como forma de constituição de seu pensamento visual e a fotografia como formalização possível. O olho desponta, então, como elemento de recorte da paisagem: focar para retirar do universal aquilo que se deseja particularizar; o “olho” da câmera fotográfica, mas uma vez superado, a presença maciça da linha impregna toda forma de “pensar” a imagem.

Não há transferência automática da imagem para os suportes, mas a criação “emocional” da paisagem. O processo explora, não o limite da reprodução mecânica, mas a imperfeição do gesto humano, como meio de atingir o belo e de aproximar-se da perfeição: materialização de uma possível paisagem.

Neste limite da exploração das linguagens, não é suficiente superar o registro mecânico. A interferência que o gesto produz nas imagens fotográficas, claramente escamoteia a realidade - a paisagem existente - mas na verdade revela esta possibilidade, materializada em superfície, de paisagem.

O gesto da criação é, portanto, a busca da perfeição pela superação e, superada a limitação tecnológica, ele resiste. Resiste, em sua simplicidade e clareza, a ameaça de desmanchar-se no ar. Ao constituir-se de linhas, quase desvanecendo, solidifica-se e corporifica-se na superfície, paradoxalmente etéreo!

A paisagem fotografada, ou a recuperação do esforço do olhar, da compreensão da imagem, eis aí o seu caminho. O desprezo pela facilidade de uma imagem e a recusa ao puro experimentalismo da técnica ( e da simplista relação materiais e procedimentos) determinam - em um processo de construção e não apenas de resgate - os traços, agora indícios de recuperação mnemônica de referências da natureza. Aqui, o que menos importa são as tradicionais questões que permeiam, desde o século passado, as discussões sobre as linguagens artísticas, suas crises e seus rumos.

Neste mundo dominado pela cultura da visualidade as discussões sobre os procedimentos técnicos: a gravura ( e o gesto), a foto (e a ação), a foto interferida (o gesto sobre a ação: dupla gestualidade), a ação sobre a imagem fotográfica (recuperar, reproduzir, criar e interferir: processo e criação da imagem) parece não haver mais espaço para a presença da emoção: uma evocação sensível da memória. E, é nesta contramão que segue a artista, não pela contestação e negação de tendências contemporâneas, mas pela delicada abnegação e pela dedicada fidelidade a sua busca.

Nestas séries de paisagens mais recentes, nos deparamos com a necessidade de tornar possível a realização de uma natureza visual, por objeção a realidade, a natureza objetiva.

Há um elemento fundamental e vital para a tentativa de compreensão do universo da criação destas paisagens (foto)gráficas. Não se trata, portanto, de questionar a adequação no uso deste ou daquele procedimento técnico, mas sim de mergulhar nas imagens: apreender a materialização dos “lugares” sobre o papel fotográfico.

Confluência de experiência, significação e memória, estes fragmentos de vida são, em verdade, resultado de um reducionista processo de investigação do olhar sobre o espaço da natureza. Novos rumos na construção de um universo plástico, literal e materialmente, reconstituídos a partir de jogos de luz e sombras.

A escolha: recortes de uma paisagem transformam-se em desenhos realizados a partir daquelas imagens fotográficas e, portanto em índices que gravados sobre película de filme velado, ampliam-se e reproduzem-se . O gesto, corresponde a rapidez gráfica produzida sobre diminutas superfícies de gelatina e celulóide, aglutinando os procedimentos e realizado em instantes. Aponta-se desta forma para uma correspondência direta ao traço do desenho, ao gesto de cavar da gravura e, não ao instantâneo fotográfico.

A paisagem, saturada de significados, nos apresenta indícios de sua presença primeira: não a ambigüidade de espaços indeterminados, mas a referência do lugar desaparecido, enquanto imagem. Auto-determinante, o gesto interferidor - superado seus limites - permanece, se abstém, constrói o espaço e dá-lhe existência. Realiza-se, pervertendo-nos doce e suavemente o olhar.

Manchas amplas e largas superfícies, extensas áreas como planícies desbravadas pela luz se oferecem, recusando a superficialidade ao olhar. Não há resquícios ou ruínas, apenas existência.

Marcos Moraes

* Texto do catálogo de exposição individual realizada no mezanino da Galeria Nara Roesler, de 10 de junho a 03 de julho de 1999 em São Paulo

 
 
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