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A fotografia como antimimese

Vinda de uma formação artística voltada primordialmente para as técnicas manuais, Celina Yamauchi aproxima-se da fotografia ainda nos tempos de estudante e descobre nela algumas qualidades que lhe permitem repensar e problematizar uma concepção de arte sedimentada.

O que a atrai na prática fotográfica não é seu aspecto indicial, mas antes seu caráter de código, de produto artificial que coloca em cheque a noção de mimese, mesmo não descartando o referente exterior. As fotografias de paisagem de Celina Yamauchi, integradas freqüentemente por intervenções manuais, por riscos rápidos e nervosos, próximos de uma escrita gestual, remetem de imediato à relação ambígua que se instaurou entre imagem técnica e imagem artística desde o século passado.

A intervenção autógrafa da artista não pretende contudo, reviver a pratica pictorialista, e sim explorar a imagem fotográfica enquanto construção artificial, alicerçada na lógica perspética. O risco, a escrita gestual parecem, à primeira vista, arranhar a superfície indicial da imagem, criando uma zona de tensão entre o automático e o manual. Mas eles vão além disso. Devem ser considerados, sobretudo, instrumentos analíticos que enfatizam ainda mais o código perspético, pois conduzem o olho do espectador diretamente para a captação de uma profundidade apenas sugerida pela fotografia e enfatizada pela sobreposição do desenho.

Desse modo, Celina Yamauchi inverte a lógica pictorialista, que pretendia conferir artisticidade à imagem mascarando sua verdadeira origem. O que ela faz é o contrário disso: a imagem fotográfica permanece tal, como processo técnico e como resultado. A intervenção manual é uma possibilidade de que lança mão para pensar as modalidades de construção da imagem, não temendo contaminar um procedimento com o outro. Essa contaminação não só questiona a existência de limites rígidos entre uma linguagem e outra, negada ao longo de nosso século, como erode sutilmente a visão mimética, a ideologia do analogon ainda muito presente na interpretação e na prática da fotografia entre nós, ao fazer de toda imagem o resultado de um artifício, de um ato de visão que conforma o referente a partir da intencionalidade do artista.

Annateresa Fabris
S. Paulo, 16 de novembro de 1994.

* Texto do folder da exposição realizada no Centro Cultural São Paulo, de 29 de maio a 23 de junho de 1996.

 
 
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