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um outro lugar de onde estou

E... é como que ao unir frações de acontecimentos, de entendimentos ou raciocínios, fôssemos definindo as razões da forma; coisas que foram deixadas ali, aclamando um “outro lugar”. “Digo Isso no sentido da nomenclatura de situações adversas que nos dominam, assim, o nosso outro lugar é variante, isento de adereços desnecessários, tão utilizados na arte hoje”1.

O pensamento se lança como vácuo ao penetrar as obras de Cláudio Matsuno - laranja e verde, confinados em godês e endurecidos pelo tempo traduz-se por "La mierda de um Tubo"; duas cadeiras preparam um diálogo por meio de um desenho riscado e, ainda, um plástico preto escapa à moldura do quadro constituindo-se em obra - percebendo tensões, como quem faz com as mãos o que o destino não previu.

Por vezes podemos ver uma mancha que lamenta, respinga e se propaga, acometendo-se em poças, entre picos de pretos e rabeiras. Imediatamente contrai-nos um sentimento, uma pedra deixada como marco sob “Now it's a sense”, gesto de pertencimento poético cultural, já que “um sinal é uma diretiva social; uma placa é um marcador da verdade oficial que exalta um lugar ou um nome próprio como a própria presença da história”2.

De humor cáustico Matsuno mensura a pintura, contudo, espirituoso apresenta um ex-gelo, cujo recipiente de vidro, preso a um grampo goller de papel, permanece abastado d’água, colocado abaixo da frase “Ex-Gelo”. Junto e, ainda presos a grampo, notamos um “Seja sucinto”, fragmentos de azulejos brancos encontrados ao acaso e postos ao todo na instalação, recodificando o percurso dessas coisas deixadas à deriva, estendendo o campo do desenho para além “muros”.

Entulho, elástico, poeira, nylon, fumaça, fita crepe, papelão, pó de cal, gravetos, papel queimado, pedra, tábua, vareta, ralo, adesivo, cordão, plástico, embalagem, destroço, desenho, pintura, moldura, papel de embrulho, tela rasgada, boneco velho, chassis, pregos, pincel, frases e palavras, compõem, por refinada escolha, a materialidade da obra de Cláudio Matsuno, que combinada por procedimentos complexos se relaciona em associações por similaridades. Abelhas numa caixinha diminuta com o dizer “I Hate Humans” e um gafanhoto morto também fazem parte da significação da obra. Um malfeito inventado, uma palavra criada, advindos de pormenores retirados do resto urbano, acabam estabelecendo esse universo singular e objetual, considerando o lugar ocupado por uma ação onde “o artista se torna um manipulador de signos mais do que um produtor de objetos de arte”3 ; trazendo o espectador ao mundo ativo interpretante. “No percurso da arte, onde prevalece o “padrão de beleza” no campo visual, o operante vai à contramão desta ação, não pela rebeldia, mas pelo interesse em tornar a obviedade das coisas em possibilidades lúcidas e evanescentes. Valores antagônicos delimitam, tomando a ideia de que a história do mundo, muitas vezes, produz resultados contrários e paradoxais aos pretendidos”4.

Mergulhado nas influências Povera e Conceitual sua obra constitui-se ao mesmo tempo de natureza onírica. Esses rasgos de papéis, as frases contundentes e os resíduos reconsiderados em sutis composições trazem, paradoxalmente, uma candura revelada na preocupação com a vida humana, que reverbera num “outro lugar”, o lugar da arte.

Marta Strambi - agosto de 2012
Artista e Doutora em Artes. Profa. do Programa de Pós - Graduação em Artes Visuais/ Unicamp

1 Por Cláudio Matsuno.
2 FOSTER, Hal. Recodificação. São Paulo: Casa Ed. Paulista, 1996.
3 Id
4 Por Cláudio Matsuno.

 
 
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