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Quadro

A bela imagem, mesmo quando feia, ainda parece ser o paradigma da fotografia. Bela porque diz alguma coisa, denuncia, porque representa ou expressa algo, porque nos arrebata. Essa bela imagem, também por todas essas razões, faz-se lírica, poética, sensível e, mesmo quando feia ou monstruosa, tem seu estatuto de beleza garantido, tornando-se, então, merecedora do nosso olhar. (Nossa consideração). E quando não é assim?

Pois não é assim em Quadro, terceira exposição individual de Beatriz Toledo. Aqui, não há instante, não há uma confluência de fatores que o fotógrafo, aquele ser sensível e perspicaz, quase como um médium que recebe uma espécie de santo do real, capta e traduz para o mundo dos mortais. Em Quadro há apenas decisão. Um saco dourado, uma moldura dourada, uma sala com paredes cinza e luz bem equilibrada. Tudo uma coisa só. Escolha meticulosa da artista.

E nessa apresentação de coisas, o quadro na parede é aquele objeto que segura e recorta a imagem de uma foto, é a moldura e a foto, mas é também a sala inteira que, vista em seu conjunto, compõe um tableau do que seria uma exposição em um daqueles museus de belas artes. Um belo quadro esta exposição.

***

Falar das fotos ou descrevê-las, como se faz hoje em dia nos textos de parede — pra que descrever o que está aí ao lado, pronto para ser visto? —, é menos vital do que falar desse quadro aberto a nossa frente. Um espaço que evidencia o lugar paradoxal da fotografia feita atualmente sempre algo entre aquilo que o artista fez e aquilo que deixou intocado. Estética, porém involuntária. Aliás, “estética involuntária” era pra ser o nome desta exposição. Quadro é melhor, claro, pois é recorte, constatação e objeto. Tudo junto, já que não se trata de fotografias emolduradas. Moldura e imagem são uma coisa só, e a imagem que está ali, cenas de lixo, é mais reverberação do que oposição àquelas molduras (douradas como o mundo do luxo). Reverberação das formas, exagero e extrapolação que poderiam nos remeter ao melhor que um estilo maneirista pode ter. Aquelas fotos falam das fotos, do ato de fotografar, e centrifugam seu campo de ação para aquelas margens que não são nem as simples bordas brancas suspensas por preguinhos minimalistas nem as elegantes molduras de madeira polida, imbuia, aço escovado ou metacrilato, todos esses elementos do universo da “boa” fotografia.

Nesse aparente excesso, muito coisa vai se dilapidando, se negativizando até. A origem do lugar fotografado é uma delas, já que o “mas onde é isso?” é menos importante do que o “é isso”.

Quadro é o lugar das coisas sem origem, idiossincráticas, de imagens que não valem por palavra nenhuma.

Wagner Morales

 
 
by artebr.com