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Canteiro

"O cotidiano é o trivial (o que retarda e que recai, a vida residual que alimenta nossas lixeiras e cemitérios, os resíduos e os destroços), porém essa banalidade é o que existe de mais importante quando ela nos remete à existência em sua própria espontaneidade, tal como a vivemos, no momento em que, vivida, se afasta de toda configuração especulativa”

O mundo no qual vivemos é tão presente que não precisamos pensar na maneira como temos de habitá-lo. A fotografia de Beatriz Toledo se concentra nesse presente ordinário. Ela pode incluir uma árvore, um carro, um painel publicitário, uma cadeira, um banco, um saco plástico, uma lixeira… Esse objeto, figurante do mundo ao qual pertence, torna-se singular e único - mas não “sublime” - pelo fato de ser fotografado. Tudo o que faz é deslocar-se para um mundo paralelo no qual ele é, enfim, um cidadão.
A exposição “Canteiro” tem como tema a desordem ordinária: suspensão, instantes de transformação, abandono, reparo, acumulação. Não se trata, de forma alguma, da constatação do caos ou de disfunções. Ao contrario, tal transformação, enquanto elemento maior da desordem, serve apenas de gatilho, representa somente um ponto de partida para investigar o poder que a imagem tem de captar o olhar. Uma vez que o olhar esta lá, a artista o reordena a fim de o tornar ainda mais ordinário: dimensões quase na escala do real, luz natural, cores brandas.
Beatriz Toledo busca ver além: ela presta atenção naquilo a que não prestamos atenção. Fotografa grupos de objetos que, a priori, não são destinados a significar nesta realidade que nos envolve. A fotografia os representa como eles são, sem nenhuma preparação prévia, e torna cada organização “única”, conferindo-lhes uma persona. Ela os enquadra de modo a criar um imaginário paralelo – e até mesmo uma realidade alternativa – na qual deixam de ser figurantes e assumem o papel de anti-heróis. Toledo nos faz descobrir a textura do presente através do que é descartado. Ela não sublinha esse presente, nem tampouco o sublima. Esse universo relacional produzido pelas imagens exibidas nesta exposição vem carregado de heróis por acaso: paisagens de objetos enganosos, desprovidos de qualidade, vis. A fotografia não convencional de Beatriz Toledo presta homenagem ao não-aparente, singularizando-o sem supervalorizá-lo. Ela se apresenta como o anonimato defendido pelo filósofo Bruce Bégout como “a única estratégia possível para um ego original frente ao narcisismo da sociedade do espetáculo”

Melis Tezkan
Tradução Julia Vidile

Maurice Blanchot, Le journal intime et le récit, cité par Elisabeth Lebovici dans L’intime et ses représentations, p.18 Ecole Nationale Supérieure des Beaux-Arts, 1997, 2004.

 
 
by artebr.com