“O trabalho não é posto em um lugar, ele é esse lugar”.
(Michael Heizer)
Parece que cada vez mais é preciso se afastar do mundo para poder enxergá-lo melhor. Fotografias aéreas e programas de imagem como o GoogleMaps nos dão a ilusão de ter acesso absoluto do mundo. Hoje, os espaços são resultados de um conjunto de informações. Referências visuais transformam-se em números e coordenadas. Não há horizonte, perspectiva, limites ou centro. O olhar das máquinas vem construindo com o passar tempo um mundo que cada vez menos nos reconhecemos como parte. Um mundo distante, no qual somos incapazes de interferir. Nos trabalhos de Ana Sario, o ato de olhar não é isento e as imagens não são resultado de uma organização matemática do espaço. A artista traz o mundo de volta para a escala humana. Nessas telas, vemos só até onde o corpo alcança. O horizonte deixa de ser o das máquinas, que pretendem dar conta do mundo, para ser o do Homem, limitado e parcial, que se conforma com o que vê pelas ruas por onde passa.
É caminhando pela cidade que Ana Sario vai encontrando pinturas como Da janela de Roberta (2009) e Caio Graco (2009). Com a fotografia, registra a paisagem urbana e dela se apropria de alguns indícios, como casas, edifícios, arquiteturas, ruas ou paredes. A fotografia interessa não apenas por sua capacidade documental, mas principalmente por seu potencial de revelar pontos de vistas, frestas, cantos e passagens no espaço. Mas aqui, não se trata de simplesmente observar. Em vez de fotografar as paisagens urbanas de fora, Ana Sario coloca-se, e acaba nos colocando também, dentro delas. A artista se utiliza de variações de planos, que podem ir desde a vista que se tem do 10º andar de um prédio até um close focalizando um detalhe; e diferentes pontos de vistas, como vistas de cima para baixo ou de baixo para cima.
Se esses são espaços afetados pelo olhar, são também espaços afetados pelo ato de pintar. Apesar de terem como ponto de partida fotografias, as pinturas de Ana Sario não estão presas a elas. Ao contrário, partem de elementos presentes nela para rearticular o espaço do mundo e o espaço da tela. Ângulos e articulações são intensificados no ato de pintar. Em telas mais recentes, como Quintal (2009) e Quadra (2009), o espaço vem ganhando mais movimento, com a desestabilização de planos e estruturas. Em alguns casos, quase deixam de ser uma imagem para se apresentarem como planos construídos a partir de articulação de campos de cores. Cores, aliás, que não são as da cidade ou das coisas. São cores que revelam um olhar afetuoso para a cidade.