voltar    
Espaços Plenos
André Rigatti – Museu de Arte Contemporânea do Paraná - MAC/PR, 2008. Folder.

A leitura do presente texto pode ocorrer em duas circunstâncias distintas – junto aos trabalhos do artista, no Museu de Arte Contemporânea, ou longe deles, tanto espacial como temporalmente. Ambas as situações distanciam o leitor da obra, mantendo perante os seus olhos apenas vestígios da mesma. Discussões mais aprofundadas sobre as implicações dos meios de reprodutibilidade técnica sobre a obra de arte estão ocorrendo desde a década de 30 do século passado, tendo como eixo fundamental os escritos de Walter Benjamim; contudo, decorridos quase 80 anos do estopim deste debate, o tema ainda é bastante pertinente e, no caso das obras aqui reproduzidas, fundamental. Os trabalhos de André Rigatti solicitam a presença física de um sujeito para que se configure uma experiência estética; não que isso não ocorra com a imensa maioria dos trabalhos de arte, mas, nesse caso, perante uma reprodução, as qualidades mais delicadas e elementares da obra estarão perdidas.

É um trabalho que se apresenta como um corpo perante outro, dirigindo-se ao olhar. Pede proximidade e tempo. Proximidade necessária, por exemplo, para que seja possível distinguir os elementos que compõe uma série produzida com vinil adesivo sobre papel – linhas brancas, aplicadas sobre fundo branco, articuladas a poucos fragmentos de cor. Destacadas do papel apenas por uma sutil diferença de textura e espessura, as linhas sinuosas descrevem percursos, cuja harmonia esconde um processo de produção quase mecânico, descrito pelo artista – uma superfície em forma de meia-lua tem suas bordas destacadas com um bisturi, gerando pequenas curvas, finas, levemente irregulares. Agrupados em linhas, com leve afastamento entre eles, os fragmentos passam a descrever uma nova configuração sobre a superfície porosa do papel. Embora cada corte guarde ainda o índice da superfície original, a disposição imposta inviabiliza a sua remontagem. Superfície que se converte em linha para dialogar com a superfície.

Ao tratar uma das etapas de produção do trabalho a partir de uma ação repetitiva, o artista recupera um questionamento presente na história da arte desde a década de 60, acerca do caráter expressivo da obra. No entanto, o resultado obtido com esta ação, um conjunto de pequenas curvas em vinil, é tratado com grande sensibilidade a seguir quando, aplicadas sobre o papel, as peças assumem um aspecto compositivo, expressivo. Considerando o resultado da ação poética e o seu processo de realização, observamos uma obra que instaura uma possível articulação entre pontos extremos de um debate artístico, entre a unicidade e a repetição, entre a subjetividade e a frieza, normalmente associada à produção em série, entre a sensibilidade e o contexto de produção da obra de arte.

As delicadas linhas coladas potencializam o seu suporte, ressaltando sua cor, textura, trama, de modo que, ao escrever sobre estes trabalhos, salientar o uso do espaço vazio soa contraditório. São espaços plenos.
O papel, suporte destas delicadas colagens, torna-se também a base para receber outra matéria muito distinta, a tinta à óleo. Encoberto agora por uma camada de cor, o papel é revelado em pequenas áreas, que nos permitem ver características da matéria nos leves resíduos de gordura que invadem os espaços brancos e, na espessura da tinta, disposta em camadas, em procedimentos similares aos usados com o vinil, com pinceladas regulares. Também aqui as áreas de cor parecem ficar em uma situação limite, entre a gestualidade expressiva e processos industriais de pintura, que geram superfícies planas.

Se desde as experiências modernas as categorias artísticas perderam seus contornos rigorosos, parece inócuo chamar essas obras de desenho ou pintura. No entanto, em relação aos processos de produção do artista, podemos pensar em propostas que discutem o desenho e a pintura, mas que também propõem às pessoas uma experiência estética mais lenta, delicada, subjetiva. Um corpo sensível perante outro. Uma experiência que não pode ser substituída, apenas compartilhada.

Simone Landal

 
 
by artebr.com