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Exposição Antonio Malta
Galeria Virgilio, set/out 2007

Sobre o trabalho:

A exposição consiste de quadros em óleo sobre tela pintados em 2006 e 2007: quatro telas de 180x230 cm e cinco telas de 120x150 cm.
Vou comentá-los um a um. Primeiro (na sequência em que foram feitos), o quadro de 180x230 cm, em tons de preto, branco, cinza e magenta, de 2006. O tema do quadro é a fórmula “duas cabeças”. Um tema já experimentado em 1980/81 em uma gravura em metal, e que periodicamente reaparece no meu trabalho, quando a tela é no formato paisagem (dimensão horizontal maior do que a vertical). No caso da pintura em questão, esse tema é definido pelos contornos em preto, cinza e magenta, sobre um fundo branco que é listrado no lado direito. As listras no fundo, bem como as formas em preto, cinza e magenta das cabeças, são abstratas no sentido de que não derivam da fisionomia do rosto humano. Apenas o chapéu da cabeça da esquerda é reconhecível enquanto figura. No caso específico dessa pintura, as cabeças estão bastante explodidas e fragmentadas, com partes justapostas. A pintura é rápida na fatura, tendo sido feita em algumas sessões, sobre um fundo já seco de Terra de Siena Natural (um tipo de marrom). Esse fundo já continha o esboço das figuras.
A pintura comentada acima faz parte de uma série de quatro que fiz em 2006, com o tema “duas cabeças”. Essa série veio na sequência de uma outra série, de 2004, onde as telas com as mesmas dimensões estavam na vertical – aí o tema era uma cabeça e não duas.
O tema da cabeça vem do retrato, que é um tema clássico na História da Arte. No meu caso é um “retrato” de um personagem inventado, com formas inventadas, abstratas em si, mas que compõe uma figura, em geral um homem com chapéu. Esse homem com chapéu, por sua vez, vem da História em Quadrinhos, que eu fazia no colégio. Há também o precedente pictórico: os retratos cubistas e pós cubistas de Picasso.
Agora as pinturas menores, de 120x150 cm. Fiz dez ao todo dessa série. Na exposição mostro cinco. Nesta série, propositalmente evitei um tema pré-definido. O que aconteceu já era de certa forma previsto: a pintura desandou em todas as direções possíveis, ficando praticamente abstrata em alguns casos (em composições complexas mais ou menos cubistas), ou então assumindo uma figuração insólita, lembrando Philip Guston. Dois polos bastantes incongruentes, mas por isso mesmo geradores de soluções inusitadas.
É o caso da pintura de fundo preto e marrom escuro, que tem uma figura em vermelho, preto, branco e marrom, facetada. Essa figura pode ser analisada como um amálgama de duas cabeças, ou uma cabeça com um apêndice. A figura em si é composta de planos cubistas chapados, mas o pedaço que tem hachuras (riscos pretos) cria um caráter orgânico e animalesco, retirando a pintura do domínio da abstração pura.
As duas pinturas com fundo branco são diferentes entre si apesar de terem sido feitas uma logo depois da outra. A que tem duas figuras separadas é mais facilmente classificável como parte da família das “duas cabeças”, apesar das figuras dificilmente lembrarem cabeças. A outra, que tem uma figura apenas é mais cubista e abstrata. Um coração não planejado de início acabou sendo deixado, da forma como apareceu.
Finalizando as telas de 120x150 cm, duas pinturas diferentes, ambas razoavelmente figurativas. Uma, bastante gustoniana nas cores e forma de pintar. Fundo preto, e figura em vermelho e branco. Uma flôr? Um tótem? Uma cabeça? O espaço é quase naturalista, com direito a pequenos morrinhos embaixo, no horizonte. A outra tela é em ocre, verde, preto, branco, magenta e amarelo. Um cubo na paisagem, com uma outra figura em segundo plano se desfazendo em uma abstração cubista – com brilhos de cor no fundo.
Por fim, vejamos as três telas de 180x230 cm que são divididas em vinte e quatro retângulos iguais, com as figuras pintadas dentro desses retângulos. A divisão repetitiva e não hierárquica do espaço da tela vem do Minimalismo. A minha idéia foi colocar o personagem, ou uma forma qualquer, como uma repetição minimalista, mas ao mesmo tempo como variação, pois cada figura é diferente da outra. Há o conjunto de todas as figuras, como uma coleção, e também uma possível narrativa, como uma sequência de metamorfoses entre as figuras.
Há também um brincadeira – as citações de cada tela. Cada quadro cita uma obra específica de um artista específico, em uma das figuras. Pensei em não escrever sobre isso, para que cada um descobrisse por si só, mas aí vai: na tela de fundo vermelho, a citação é de um Combine de Robert Rauschenberg, mais especificamente Kickback, de 1959. Na tela de fundo verde, a citação é da obra de Lygia Clark, “Planos em superfície modulada nº5”, de 1957. Na tela de fundo preto, a caveira é uma interpretação expressionista de uma Skull de Andy Warhol (1976).
Porque estas citações específicas? Poderiam ser outras, mas a escolha sempre ocorre em função de algumas circunstâncias. No caso do Rauschenberg, eu viajei a Nova York em 2006, e os Combines estavam expostos no Metropolitan Museum. Não vi a exposição por falta de tempo, mas comprei o catálogo e uma biografia do artista (que ainda está vivo, morando na Flórida desde os anos 70). A partir daí “descobri” Rauschenberg, que não conhecia direito. Uma figura interessante, gay (depois de ter um filho), um dos pioneiros dos lofts em NY nos anos 50, passando uma certa dificuldade e até fome, até se estabelecer nos anos 60. Os Combines são obras dos anos 50, quando o artista ainda não era levado a sério pelo meio artístico; são feitos com objetos que o artista encontrava na rua, mais pinceladas de tinta, roupas velhas, jornal, cartas, tudo colado ou pregado em tela ou madeira, de uma forma completamente precária, mas ainda assim com senso estético.
Andy Warhol, vi bastante nessa viagem, principalmente na DIA Foundation. Suas caveiras são como aquelas pinturas antigas que lembravam o espectador da brevidade da vida, as Vanitas. Também estava estudando bastante Warhol quando fiz essa pintura, mas foi a morte de minha avó Lourdes que motivou a escolha.
Lygia Clark: queria uma citação de um artista brasileiro.
A primeira tela desta série, que não está na exposição, tem a citação óbvia e primeira no meu caso: Picasso.

Antonio Malta
julho de 2007

 
 
by artebr.com