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Ponte e Estruturas Imaginárias

Esta exposição de Ana Holck difere de todas as anteriores. Antes havia a radical experiência de espaço na qual nosso corpo e o trabalho, em certa medida, se confundem (Transitante, na Galeria Candido Portinari da Uerj; Elevados, no Paço Imperial) ou definitivamente produzem uma alteridade, que posso chamar prosaicamente de “aqui” e “ali” pela própria impossibilidade de acesso ao espaço ocupado pela obra (Impedimento, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage). Todos eram trabalhos in situ; mesmo aquele no Centro Cultural São Paulo, no qual a relação com o lugar era um pouco mais frouxa pelas próprias características impostas pela difícil arquitetura do local. Lembremos apenas que essas instalações não trazem nenhuma carga narrativa ou anedótica, mantêm um explícito diálogo entre uma atitude contemporânea e o melhor passado moderno local, na sua vertente construtivista, e, também, com o minimalismo anglo-saxônico. Na confusão atual e seu turbilhão de imagens e sentidos lançados a torto e a direito junto às teias de subjetividades, as instalações de Ana Holck são de uma clareza atroz – dura e rigorosa – e se impõem como o próprio real, não como mais uma realidade.
Agora, nessa exposição, nos encontramos defronte a objetos que se confundem com maquetes de possíveis instalações. Tais como as obras anteriores, derivam da própria formação da artista em arquitetura, de sua reflexão sobre as estruturas e sua transformação em linguagem poética. Vistos nessa outra escala, quando para fruí-las tenho que retornar a uma posição contemplativa, posso observar com mais interesse a totalidade. Nas instalações, quando estou no interior da obra e dela sou parte, essa observação é impossível; ganho na experiência direta de meu corpo com o espaço gerado pelo trabalho, mas perco a possibilidade de organizar num único lance de olhar todas as suas articulações. Agora reflito tranquilamente sobre as estruturas imaginárias contidas nos microespaços transparentes constituídos pelas caixas de acrílico que recebem as “pontes”.
A primeira coisa que esses trabalhos me lembraram foi um artigo de Annette Michelson, que li no início da década de 1970. Ela narrava a experiência que teve ao ler o anúncio de uma edição da Crítica da razão pura ilustrada. Relatava suas ilações entre a leitura do anúncio e a caminhada até a livraria para a consulta da nova edição. Imaginava algo como as ilustrações de esquemas desenhadas por Lévi-Strauss para ilustrar as Estruturas elementares do parentesco. E arquitetava como materializar no desenho essas relações abstratas. Quando observo as caixas de espaço criadas por Ana Holck, penso que se encontram bem próximas de algo como as ilustrações imaginárias de relações kantianas. Não exagero. As caixas são euclidianas e não evocam nenhuma geometria imaginária, estão inteiramente contidas numa das categorias a priori da intuição pura, todas as estruturas são newtonianas, não há torções topológicas. Estamos dentro de exercícios poéticos delicados da mecânica e da grafostática.
São hipóteses de possíveis espetáculos espaciais que poderiam ganhar dimensões generosas, mas, ao mesmo tempo, colocam-se no extremo oposto da brutalidade de escala explorada na arte contemporânea em suas manifestações freqüentemente narcisistas. Transpostas das pequenas caixas para grandes salas, conseguiriam permanecer sutis e delicadas pela economia racional que explora na sua linguagem. E esta linguagem é a sua própria idéia. Não se trata de conceito, mas da Idéia da estrutura como linguagem, que reverbera em cada uma das “pontes” de Ana Holck.
Um “museu do cálculo”, apresentando raciocínios e projetos de pontes, mostraria as variações do conceito de estrutura de pontes. A coleção de estruturas imaginárias de Ana Holck, ao não perseguir a função de existir como um conjunto de pontes reais, mas somente de “pontes poéticas”, transcende o lado utilitário da estrutura e se apresenta como a própria Idéia de estrutura e a história de seu raciocínio, exatamente porque não persegue o inventário de estruturas realizadas, mas procura sua realização no campo poético das relações das estruturas virtuais entre si. Envelopadas pelo espaço das caixas transparentes, estas estruturas potencializam ainda mais a função de evocar e não conotar, do mesmo modo como Charles Rosen apresentou a diferença entre Idéia e conceito em Benjamin. *

Paulo Sergio Duarte
Rio de Janeiro, julho de 2006

* ROSEN, Charles. As ruínas de Walter Benjamin. In: ______. Poetas românticos, críticos e outros loucos. Tradução José Laurênio de Melo. São Paulo: Ateliê Editorial; Campinas: Editora Unicamp, 2004. p. 180.

 
 
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