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Adams Carvalho

A pintura de Adams Carvalho mobiliza recursos de estímulo visual na condução dos pincéis, em sobreposições cromáticas e arranjos de padrões decorativos, até obter cenas vácuas e parciais. Uma profusão de acontecimentos plásticos – descendentes, em parte, da prática do desenho – irrompe em telas de pequeno formato, dentro de enquadramentos próprios à fotografia e ao cinema, com situações descontínuas, pessoas solitárias e lugares desocupados. Mais especificamente, as imagens ou alteram quadros unitários de um filme cinematográfico preexistente, no meio-instante de um diálogo, uma ação; ou representam, como através da lente de uma câmera, séries de ambientes mobiliados, acesos, sem presença humana, e de garotas enfastiadas, ociosas, em poses de alheamento.

A atitude e a psicologia dos eventuais personagens importam pouco ou nada na composição, se comparadas ao papel exercido pelos componentes cênicos figurino e cenário. Inspirados menos na observação da realidade do que num repertório formado pela reprodução técnica da imagem, esses “instantâneos” vazios de ocorrência organizam o espaço pictórico com a distribuição de estampas de roupas, cortinas, tapetes, estofados, papéis de parede... Elementos que se escoram mutuamente – sem o que transbordariam uns sobre os outros –, em meio a tramas de pinceladas que constituem, por exemplo, a perspectiva de um corredor. Na simultaneidade entre acúmulo e escassez, movimento e quietude, a produção destes trabalhos procura um equilíbrio instável capaz de tornar fluido o significante dos códigos ali reunidos.

As obras que integram a segunda individual de Adams Carvalho lançam mão de um imaginário disponibilizado pela cultura pop. Misturam referências de um gosto cult, ilustrado, com motivos e soluções de circulação irrestrita por ensaios fotográficos de moda, vinhetas de televisão ou, em suma, pelos veículos de comunicação da indústria do entretenimento. Um espectro imagético que abarca desde o clima abafado das filmagens indoor do cineasta Won Kar-wai até aspectos que parecem vir do videoclipe, dos gibis para adultos, dos anúncios comerciais em páginas de revista. E quando há um material específico como base para a criação das pinturas, este passa por falseamentos e substituições que impedem sua identificação imediata. Da mesma maneira, a monotonia envolta em superfícies rítmicas de estampas coloridas toma corpo sob uma opacidade tal, que o espetacular não chega a dizer seu nome com todas as letras. Ainda assim, as imagens do artista, inclusive as que não têm um referente a priori, guardam algum nível de familiaridade, talvez pelo intimismo que sugerem. Ou, quem sabe, por lidarem com registros oriundos da pintura, da fotografia e do cinema, a fim de reproduzir um ponto de vista que seja eqüidistante entre o olho e a máquina.

José Augusto Ribeiro

 
 
by artebr.com