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Efêmera Paisagem

A paisagem na fotografia é intermediada por um instrumento, é produto de regras estabelecidas, forma-se a partir de um cenário percebido, captado, recortado, submetido ao olhar. Nesta série, no entanto, Alberto Bitar expande a paisagem, ora torna-a quase invisível, ora nítida, bem delineada. São paisagens íntimas, impregnadas de solidão, de ausências, tecidas a partir de um território, visto de relance, no locomover do carro. O olhar silencioso e perspicaz transfere para a imagem o que é temporário, passageiro. No vídeo e nas fotografias prevalecem a melancolia e a saudade – indizível sentimento de incompletude.

Efêmera Paisagem é constituída de delicadas cenas, recobertas de afeto em que se sobressai uma estética concebida com sutileza e sensibilidade. Os passeios a Mosqueiro, na infância, pontuados pelo carinho materno e paterno, pelas imagens embaçadas percebidas à distância, modificadas com a velocidade, transformam-se em preciosas lembranças que o artista traduz em arte. Nada é o mesmo e, no entanto, a sensação do que foi aloja-se no imaginário que reconduz a paisagem em um tear poético no qual dores e prazeres formam-se além da percepção multidimensional de um lugar específico, do mundo.

Para o poeta Rainer Maria Rilke “o mundo é grande, mas para nós ele é profundo como o mar”. Imensidões de translúcidos e irreconhecíveis sentimentos se aglomeram sem que se consiga decifrar todos os sentidos. No estado de devaneio o fotógrafo distancia-se do mundo próximo para reconhecer-se no infinito do mundo. Entre o próximo e o distante Bitar contempla a grandeza das imagens que se formam em um fluxo infindo. Gaston Bachelard considera que “a imensidão é o movimento do homem imóvel”. No interior do carro que se movimenta, estático, Alberto recolhe a paisagem e em um urdir de luzes e formas disponibiliza aquilo que foi vivido.

Mais uma vez não posso deixar de escutar a voz de Bachelard: “embora pareça paradoxal, muitas vezes é essa imensidão interior que dá seu verdadeiro significado a certas expressões referentes ao mundo que vemos” 1. Ao pensar no ato fotográfico, Bitar via-se no mesmo lugar, sentado no banco de trás do carro, quando, menino, viajava observando a paisagem que “passava”. Passou o tempo do instante, iniciou-se outro, no qual a estrada não é mais a mesma, a paisagem transformou-se, apesar de mantidas as semelhanças. Os borrões de cores, vistos da janela, desvaneceram-se, tornaram-se cinzas na tela do vídeo.

O que ocorre na imensidão interior? Difícil responder. O que pode ser dito é que, cedo, um olhar se formou junto ao hábito de fotografar de dentro do carro. O que se vê, todavia, é o resultado de deslocamentos, a imagem fixa que, junto a outra, pode transformar-se em imagem em movimento. A série fotográfica, nascida após o vídeo, traz a cor, alterada com uso de diversos filtros durante a captura da imagem. Esta jamais possibilita flagrar o homem, apenas o lugar. Somente os índices de sua passagem pontuam a casa, o veículo, permitem a presença ausência na paisagem.

A imensidão interior conjuga-se ao enredo imaginário construído a partir do enredo vivido que a memória embaça e transforma em lembranças. A imensidão íntima é a imensidão poética encontrada na imagem individual, no díptico, político ou vídeo. Mesmo que imagens se completem, cada uma mantém uma significação própria e expande-se além do real. A visualidade do transitório desmaterializa a nitidez do que está fora e reverte o que os olhos veem, tornando visível um campo imaginário que não mais pertence ao fotógrafo. Evanesce o que está diante dos olhos, seja a paisagem que se apresentou no instante da fotografia, seja esta que, traduzida em imagem, traz a cor e a luz atribuída pelo fotógrafo.

Neste instante não mais se vê o que, visto por outro, ficou impresso no papel, na tela. Um estado de passagem, indefinível, alocou-se entre a obra e o espectador, enquanto um tempo fluído e não captável inscreveu-se na relação que se estabeleceu no ato da percepção. Doravante, há uma rara oportunidade de compartilhar com o artista a estética de uma subjetividade plena, que pertence àquele que criou as imagens e ao outro que se percebe na Efêmera Paisagem.

Marisa Mokarzel

1 Todas as citações, a de Rainer Maria Rilke e as de Gaston Bachelard encontram-se no livro A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p.189, 190 e 191. Alberto Bitar, em conversa, confidenciou-me o prazer da leitura do livro de Bachelard, o que remeteu-me ao texto e à associação com Efêmera Paisagem.

 
 
by artebr.com